segunda-feira, 30 de março de 2009

"Em Louvor dos Cafés do Porto", Por Germano Silva *

Há uma história que está por fazer – a dos cafés do Porto. Não a história cronológica desde quando apareceram até ao seu desaparecimento, mas a história do importante papel que esses espaços públicos, se assim se pode dizer, desempenharam como lugares do intercâmbio de ideias e centros de difusão de culturas, tanto modernas como antigas.
Nos idos de sessenta, essa verdadeira instituição portuense que foi o "café" desempenhou um papel de tal modo importante na história das artes, da literatura, do teatro e também da política, que não pode passar despercebida à análise mais ou menos crítica do cronista atento ao fenómeno cultural de uma cidade com a dimensão da do Porto.
Houve cafés nesta nossa cidade que rivalizaram com as academias e, pode mesmo dizer-se, até com a própria Universidade. Ao redor das suas mesas, com tampos de mármore ou de vidro, travaram-se autênticas batalhas de estética, deram-se a conhecer, em primeira mão, tratados, romances, poemas. Congeminaram-se formas de resistência à ditadura e deram-se a conhecer alguns planos de luta contra o poder instituído. A determinados movimentos ou correntes correspondiam determinados "cafés".
No desaparecido Rialto (ficava na Praça de D. João I) , por exemplo, reunia-se o grupos dos poetas que editavam as "Notícias do Bloqueio". Eram eles o Egito Gonçalves, o Daniel Filipe, o Papiniano Carlos, o Luís Veiga Leitão, o António Rebordão Navarro, às vezes o José Augusto Seabra e, sempre que os trabalhos jornalísticos o permitiam, o autor destas linhas, então um jovem candidato a jornalista. As "Notícias do Bloqueio", redigidas "à sombra" dos murais de Abel Salazar pintados nas paredes do café, eram, sobretudo, cadernos de poesia mas eram também e, fundamentalmente, trincheiras de combate político e tribuna de difusão de novas ideias. "Noticias do Bloqueio" é o título de um poema do Egito. Recordo-me que foi o Daniel Filipe quem sugeriu que fosse o título desse poema a servir de cabeçalho aos cadernos. A colecção completa destes cadernos é hoje raríssima e, por isso, difícil de encontrar. A sua reedição seria como que o "pontapé de saída" para a tal história dos nossos "cafés".
Outro "café" cultural era a Primus - um misto de café e confeitaria à volta de cujas mesas eram certos, a determinadas horas do dia, o arquitecto Américo Losa e a mulher, a escritora Ilse Losa; o prestigiado advogado e respeitado combatente pelas Liberdades, Artur Santos Silva; António Ramos de Almeida que orientava o Suplemento Cultural do "Jornal de Notícias", onde acolhia fraternalmente os jovens que então ensaiavam os primeiros voos artísticos, literários ou teatrais. Recordo que o Círculo de Cultura Teatral – Teatro Experimental do Porto (TEP) tinha acabado de ser fundado e funcionava, com pleno êxito, no seu teatrinho da antiga Travessa de Passos Manuel, hoje denominada Rua do Ateneu Comercial do Porto. O grande mestre do Teatro que foi o António Pedro, sempre que os seus afazeres de director do TEP lhe davam alguma folga, bem como os actores que constituíam a Companhia do Teatro, eram também certos na Primus. "Primus inter pares", assim se lhe referiu Daniel Filipe numa das belissímas crónicas que diariamente publicava no "Diário Ilustrado". Escreveu: "Há no Porto um café onde se pensa. Há no Porto um café onde se escreve. Há no Porto um café onde se discute..."
E o "Majestic", hoje uma instituição da cidade? O que esse "café" representou e representa no panorama cultural do Porto! Houve um famoso grupo de artistas que o elegeu como praça forte para as suas guerras contra o "statu quo", que o mesmo é dizer contra o imobilismo e a inércia reinantes. Foram eles o José Rodrigues, o Armando Alves, o Ângelo de Sousa e o Jorge Pinheiro que passaram à história artística do Porto com a designação de "Os Quatro Vintes". Ainda muito recentemente, num agradável convívio com três dos "Quatro Vintes" (o Zé Rodrigues, o Armando e o Ângelo) se evocou, com alguma emoção, o tratamento afectuoso de que estes artistas eram alvo por parte dos donos do "Majestic". Não há dúvida que para muitos deles, o "café", além de ser a sua Academia, era também uma espécie de lar onde podiam aquecer-se e alimentar-se, graças, muitas vezes, à generosidade de nobres gerentes hoje infelizmente esquecidos.
Outro café, inexplicável e incompreensivelmente desaparecido, mas não esquecido, e que merece ser referido aqui, pois exerceu também uma grande influência no pensamento cultural e político do século XX, foi "A Brasileira". Era frequentado, indiferentemente, por homens da esquerda e da direita. Com esta singularidade: os de esquerda sentavam-se à direita e os de direita ocupavam as mesas do lado esquerdo.

* Escritor, jornalista e editor da revista "Visão"
Texto originalmente publicado na revista "Porto de Encontro", Julho de 2001.

O Porto dos Cafés

Dizem que ali já não se pode
Que o namoro acabou das mãos dadas à voz
Que na língua ficou o sabor à palavra e do verso a sobra de açúcar
Servem-no alto comprido e curto
De galão a pingo
De saco ou máquina
Mais do que isso são as caras que se colam aos espelhos da fala e do dito
Da disputa no discurso e na criação de novas glórias de amanhã
São as mãos que se estendem da caneta ao papel e à leitura do jornal que se empresta à mesa do lado
E o bom dia cumprimentado de quem ali mora numa bandeja institucional

Do Porto dos cafés, a memória deles resiste no vazio de alguns
Cadeiras ambulantes que jogam à séria o seu lugar com as mesas em que se sentam
Cartas de pátria e de independência visual em pontos negros de dominó

Dizem que ali não se pode
E tudo se faz num encontro de primeira vez e no desconhecimento de alguém que nos passa
Um saber de parceiro para uma estadia inteira do minuto à entrada ao pé de calcar a saída

Há quem não o tome por ficar acordado
Há quem o beba para que na vida não adormeça
E no elementar do moer o grão, à castanha borra que resta num fundo de chávena
Persistem existências reais de planos de acto e ataque
Construções de linhas combinatórias a favor dum regime que se aposta e encontra
No resíduo das massas manifestas e reuniões de vértice político e cultural

O que é mais do que isso senão motivo dele ser a sala, o escritório, a cozinha e quase o quarto onde se busca o sono de revista
Abre-se o primeiro livro escolhido, apreciam-se as frescas páginas de papel
O que a leitura ali nos aguarda
O que o outro mudo terá para partilhar sobre o silêncio

O movimento em rodopio
Serve de escala e arena de conferência
Bordando redes de peixes com ideias submergindo num mesmo aquário
Vindo à tona da parte e da acção realizável nas vezes sucessivas em que a porta se abre
E o contentamento se rasga não num sobreiro de esperar mas numa extensão de possíveis

As mesas que se arrastam e juntam
São as pessoas que as preenchem e dali dão e tiram um sentido de voltar

Do Porto dos cafés há uma lista de expressões
Que não aparecem para consultaQue nos parecem como que um ritmo íntimo do corpo cidade

A Cidade dos Cafés

A cidade dos cafés e das ruas com nomes. Este foi o sonho da cidade Europeia, o desejo da cidade iluminada, a cidade moderna. Hoje, eco da cidade das luzes. O lugar plural de discussão e o lugar discutido entre as boas e as más novas ou as novas de sempre. Sentar e pedir por favor.
O encontro colectivo e individual, lugar do singular e da observação. Estar ali e não noutro lugar. Ir ali como estar em casa e não a outro sítio. Ir ali todos ou quase todos os dias como uma rotina de lavar dentes, tomar banho, comer ou respirar. Inventar a intimidade do atelier, inventar o próprio atelier.
A dimensão de habitar o espaço, a procura e a troca. Trocar ideias, duas de letra, dinheiro para tabaco. Transportar o intransponível e não ensinável do banco da escola à cadeira e mesa do café. O sítio onde se encontra o estar, ser e olhar, um festim de verbo, onde o consumo é o dos dias – pensar e fazer tempo como mais um dos pequenos vícios. Ali, onde se abre o novo livro ou se continua a ler o mesmo até decidir escrever um que valha a pena ou que simplesmente ainda não esteja escrito, onde se ficam horas sem ver o relógio passar, onde se combinam apontamentos e sarrabiscos com comuns ou onde surgem novas pessoas para partilha. Pagar o almoço com versos, o café com cheirinho.
A pequena trama que possibilita e sustenta a procura do acontecer: gente, momentos e coisas que duram um segundo ou anos, uma longevidade com corpo e acção. Uma renda onde os afectos são trocados e os projectos são discutidos, difundidos, falados, de certo modo conspirados e pensados de raíz.
O café é re(s)pública e democracia, no limiar ambivalente do anárquico, nesse passeio que se faz dele para outros lugares sem dali sair.
Este projecto também nasceu num café à força de meia de leite, torrada bijú e cimbalino, galão e prego em pão. Aí foi desejo e entusiasmo, aí quis ser acontecimento e partilha.

sábado, 3 de janeiro de 2009

"Regime de 1/2 Pensão" - 16 a 18 de Abril de 2009

“Regime de 1/2 Pensão” é um projecto de residências de autores, criadores, pensadores activos da produção literária, do teatro, da música, das artes plásticas, da memória colectiva do local e da cidade, e tem como principal objectivo trazer de volta o artista a um dos espaços de excelência de criação, discussão e trabalho.

A decorrer de 16 a 18 de Abril de 2009, esta iniciativa reúne um grupo de artistas, entre os quais Isabel Carvalho, João Gesta, Jorge Andrade, Pedro Eiras e Valter Hugo Mãe, que irão estar em produção em cinco cafés de referência incontornável da cidade do Porto (Café Ceuta, Café Guarany, Leitaria da Quinta do Paço, Maus Hábitos e Plano B).
O último dia encerra a proposta com uma apresentação final dos trabalhos constituída por um percurso de visitação dos locais de residência.
O processo criativo dos autores residentes será registado diariamente por gravação vídeo, captação fotográfica e produção de texto. Todo o trabalho realizado comporta também o secreto desejo de se transformar em livro, filme documental e exposição fotográfica, como um coração que quer bater a dois tempos.

É de intuito a aproximação quase caricatural à imagem de uma residência real que oferece a meia pensão que falta para um viver completo mais além da cama, comida e roupa levada. Viver, assim como criar, é propor-se à imersão, ao isolamento em comunidade.
É de intento o compromisso cívico da criação cont(r)a corrente que toma pulso, lugar e realização no cenário mesmo da vida.
O público poderá visitar os artistas residentes em qualquer altura, acompanhando assim os processos criativos de cada um dos autores envolvidos.
Em si mesma, a proposta comporta um acto performativo, sem intenção de cristalizar, desaproximar ou mistificar o trabalho do criador, mas antes torná-lo mais tangível e transparente, trazendo-o e fazendo-o à imagem de retorno, à sua civilidade (como ele na realidade é) numa cidade de encontro, de entrar e sair de café como se de casa.
“Regime de 1/2 Pensão” é simplesmente o real sublinhado e tornado visível.